Antes do carvão, havia carinho e respeito.
Antes da fumaça da churrasqueira, havia o cheiro bom das panelas no fogão.
Antes da calçada tomada por latas e garrafas, o quintal era limpo, varrido com orgulho.
Antes da caixa de som estourada, havia conversa em volta da mesa, riso contido, respeito. A música era somente um som ambiente.
Hoje, qualquer motivo vira churrasco.
E qualquer espaço vira território tomado: rua, calçada, esquina, escada de prédio.
A festa não convida — invade.
O som não alegra — impõe.
E o lixo que sobra fica como marca do descuido.
O churrasco, que já foi sinônimo de convivência simples e calorosa, virou muitas vezes sinônimo de desrespeito.
Vizinho já não é lembrado, o silêncio já não é sagrado, e o espaço comum virou terra de ninguém.
Não é a carne o problema.
É a pressa, o egoísmo, a informalidade que virou desleixo.
É esquecer que alegria não precisa ser barulhenta, e que reunir amigos não exige esquecer o outro.
Perdemos algo nesse caminho.
Perdemos o cuidado, a gentileza, a vergonha de deixar sujeira para trás.
Perdemos a ideia de que comunidade se constrói também no detalhe: no volume moderado, no lixo recolhido, no convite feito com respeito.
Não sou contra o churrasco, pelo contrário, eu gosto de churrasco e acho que ele pode continuar.
Mas talvez precise reaprender o que havia de mais bonito antes dele:
o carinho com o tempo, com o lugar e, sobretudo, com quem mora ao lado.